-Já sentiu medo?
Se surpreendeu com a pergunta. Afinal aquela hora, com a quantidade de coisas que tinham pra conversar a única pergunta lógica para o momento definitivamente não era essa.
-Com certeza, muitas vezes...quase todo dia pra ser mais exata.
-E que medo sentiu ou sente?
-São inúmeros, dos mais diferentes. Alguns engraçados, outros tão pavorosos quanto o bicho-papão que habitava meu guarda roupa uns anos atrás, uns que são incondicionais e acho que a última categoria, os justos.
-Justos? O que seriam medos justos?
-Aqueles que te esfriam a barriga só de pensar, e que são de fato, não apenas um anseio, mas que você sabe que uma hora ou outra aquilo vai vir a tona e se tornar real. Daí o medo justo. O medo plausível, por assim dizer...
-Todos nós temos esse medo, e colocamos o nome de: medo da morte.
-Deve ser esse o nome que todos dão, mas no meu mundinho chamo de medo justo, fica menos pesado acho...evita essa palavra que por si só já é um medo.
-Mas, seu medo é: da morte em si, sua morte ou da morte dos outros? Qual que é a desse seu medo justo?
-Medo da morte. Morte em si, minha morte, morte de quem eu amo...da morte. É algo forte. É uma força que ninguém pode brecar, ela simplesmente chega e leva...sem pedir permissão, avisar ou mandar um sinal de fumaça.
-É algo natural, todos passaremos por isso...
-Eu sei, só que uns passarão antes de mim, e vou ter que conviver com essa falta, eu é que fico aqui, e não saberei durante quanto tempo demorarei pra vê-los de novo. Sei que não é um adeus pra sempre, e sim, um até logo. Mas não como só esse, como qualquer até logo demorado é dolorido. Deixa marcas, deixa o tum-tum trêmulo, angustiado.
-Seu tum-tum precisa de cuidados sempre...mas não tema, aceite como é. Seria mais fácil pra você, eu penso.
-Eu aceito, mas o medo é inevitável não concorda? Falando assim parece tão frio...
-Sim, com certeza. E eu ainda não entendo o seu medo! Só apenas o medo de perder alguém querido? Isso é normal, e as vezes até pode ser egoísta, mas saudável.
-O ponto não é esse só, sei lá, meu coração aperta com essas coisas... não tenho medo de ir embora, apenas anseio de deixar quem amo. Porém tenho medo de quando eles me deixarem, o que mudará, o que acontecerá... acho que só o tempo irá me dizer.
-Isso mesmo, só ele...afinal, somente ele pode decidir, não está em suas mãos.
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